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No spin? Another bit of spin?
Vi-me recentemente citado num texto que me soou alheio. Fui à procura da origem e, afinal, trata-se de um artigo (savo erro, de 2003) da minha directora Joana Machado sobre a entrada em vigor, no Governo Tony Blair, de um novo sistema de “briefs” com jornalistas. Vale a pena recordá-lo aqui.
Em terras de Sua Majestade, a assessoria mediática do Governo foi remodelada. O objectivo, dizem, é menos manipulação e mais transparência. Será mesmo?
Tony Blair acabou com os dois briefings diários do porta-voz do governo a jornalistas especialmente acreditados. Em vez desses briefings a um círculo restrito de jornalistas, o governo inglês passa agora a dar todos os dias conferências de imprensa abertas a todos os jornalistas. Aparentemente, este novo sistema torna o processo de difusão de informação mais aberto.
No antigo sistema, os briefings aos chamados lobby reporters eram tidos como oportunidades para obter informação privilegiada acerca do pensamento e das estratégias dos governantes. Tudo o que o porta-voz dissesse era on-the-record mas o o porta-voz não podia ser indicado como fonte. O ambiente intimista, era propício ao spin e às fugas intencionais de informação, através dos quais o governo fazia passar as mensagens que mais lhe interessavam. Ao mesmo tempo, era um sistema que favorecia a profundidade do debate, pois os jornalistas acreditados para os lobby briefings eram especializados e estavam por dentro de todos os pormenores da vida governativa.
O novo sistema de conferências de imprensa diárias, abertas a toda a comunicação social e passíveis de serem transmitidas na televisão, vem alegadamente demonstrar uma atitude de maior abertura e transparência. Ms talvez não seja assim tão simples. Como escreveu um correspondente da BBC News Online, Nick Assinder, desta forma o governo fica protegido pela massificação da sua audiência. Ou seja, as perguntas tendem a ser mais dispersas e superficiais, para além de o porta-voz passar a ter mais poder para limitar o número de perguntas e quem as coloca.
Segundo o sistema anteriormente vigente, quem conduzia os briefings aos jornalistas acreditados era Allastair Campbell, o mais eminente spin doctor do Reino Unido, que deixou essas funções aquando da reeleição dos trabalhistas, em 2001. Campbell é agora o director de Comunicação e Estratégia do Governo britânico, um cargo que o expõe menos mas que o mantém detentor de um imenso poder. Poucos dias depois de ter acabado com os lobby briefings, Allastair Campbell admitiu que, nos últimos anos, os esforços da sua equipa para controlar os media levaram a que a opinião pública criasse antipatia em relação à política.
Numa entrevista ao jornal The Times (09/05/02), o antigo porta-voz reconheceu que o Partido Trabalhista tinha estado mais preocupado com as percepções acerca do governo do que com a eficácia das próprias políticas.
Campbell afirmou que as tentativas de controlo daquilo que era publicado na imprensa acerca do governo começou como uma atitude defensiva e que acabaram por se tornar um objectivo em si mesmas, indo longe demais.
Campbell retratou a relação entre o partido no poder e os órgãos de comunicação social como um jogo em que cada uma das partes perseguia objectivos distintos. De um lado, estava o governo a tentar dar resposta, 24 sobre 24 horas, ao apetite voraz dos media, a tentar divulgar as suas políticas e a tentar a moldar o ângulo noticioso em seu benefício. Do outro lado, os media, sôfregos por informação e demasiado interessados nos assuntos laterais às políticas do governo, como a intriga de bastidores e as curiosidades acerca da vida política e da vida dos políticos. Ter-se-á assim gerado um "diálogo de surdos", em que os media acusavam o governo de os tentar induzir e manipular, e o governo acusava os órgãos de informação de estarem obcecados com intrigas triviais sem interesse noticioso. No meio de tudo isto, o principal lesado seria a opinião pública, cada vez mais afastada do verdadeiro debate democrático.
Campbell, cuja imagem se desgastou no fim do primeiro mandato de Blair, vem agora mostrar-se empenhado em encontrar um entendimento entre o governo e os media de forma a tornar o processo de difusão de informação mais relevante para o público em geral. O director de Comunicação e Estratégia comentou ainda que o governo britânico, graças à experiência, conquistas e confiança que acumulou nos últimos anos, já não precisa de manipular a informação, ou pelo menos não precisa tanto como no primeiro mandato. Pode agora haver "menos spin" e "maior clareza", anunciou.
As declarações de Allastair Campbell, aliadas às alterações que introduziu no modo como os jornalistas são diariamente briefados em Westminster, dão a entender que o governo está a abdicar de fazer o spin da informação. Em Portugal, esta tendência já encontrou eco. Marcelo Rebelo de Sousa insinuava na TVI, dia 12 de Maio, que enquanto o Governo de Guterres tinha marketing sem decisão, o Governo de Durão Barroso se arriscava a ter decisão sem marketing. Como sabemos que, nos dias correm, não há ingenuidade quando se trata de promover a imagem dos governos, parece que a ilusão da transparência é a nova táctica para recredibilizar os spin doctors, baixar as defesas dos jornalistas e da opinião pública e conseguir um spin mais perfeito, uma encenação mais convincente.
Ao negarem o seu próprio papel, os assessores mediáticos e os homens por trás do marketing político lançam-se à conquista do terreno estratégico que têm vindo a perder. Ou seja: criando a ilusão de que pouco interferem na informação e na imagem do governo, os mediadores da comunicação governamental reforçam a eficácia das suas técnicas, pois convencem o público de que o que parece é. Mas no fundo, como dizia Nick Assinder, o discurso do "no spin" é apenas "another bit of spin from the kings of spin".
LPM, 26-05-2007
Friday, May 25, 2007
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